Quando o mercado financeiro brasileiro ainda dava seus primeiros passos, a Matera, empresa com foco em soluções para bancos tradicionais e digitais, fintechs, e outras instituições, já investia em tecnologia para um setor que viria a se transformar de maneira radical com a digitalização.

Com quase quatro décadas de existência, a empresa acompanhou, da primeira fileira, a ascensão de startups, a consolidação do Pix no Brasil mais recentemente, e a reconfiguração de praticamente todo o sistema bancário. Nesse cenário, o papel da inovação foi central, mas também desafiador, segundo comentou com exclusividade ao podcast da Let’s Money Fabiano Amaro, head de inovação e alianças da Matera.

Foto: Let’s Money

Na entrevista, o executivo relembrou a sua trajetória. Formado em Sistemas de Informação pela PUC Campinas, com MBA em Gestão Estratégica pela Unicamp, Amaro entrou na empresa em 2008, ainda como estagiário, e acompanhou a evolução da companhia em um momento decisivo para o setor.

Nessa época a Matera contava com cerca de 120 funcionários e atendia, sobretudo, middle office banks, instituições estrangeiras que operavam em território nacional com foco em pessoas jurídicas.

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“Era uma empresa bem menor, já estabelecida no mercado financeiro, mas com um mercado potencial muito menor do que é hoje”

-Fabiano Amaro, head de inovação e alianças da Matera

Segundo o executivo, um momento determinante foi a implementação da Lei nº 12.865/2013, que regulamentou as chamadas Instituições de Pagamento (IPs). Conforme disse à Let’s Money, essa regulação foi fundamental no que se refere à separação do patrimônio das empresas dos recursos pertencentes aos clientes, dado que a mudança não só trouxe mais segurança jurídica, como abriu um novo mercado endereçável. 

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“Foi aí que viram a necessidade da lei. Ela veio para separar aquilo que é da instituição e aquilo que está em nome dela, mas é de posse dos clientes […] Do dia para a noite, criou um mercado totalmente novo e ainda com necessidade de tecnologia de core bancário para operar com o regulatório como necessário também. Com algumas poucas adaptações, conseguimos atender a esse novo mercado”

-Fabiano Amaro, head de inovação e alianças da Matera

Nesse sentido, o conceito de “embedded finance” começava a ganhar força, mesmo que ainda que sob outro nome. “A gente falava muito do conceito do ‘império’, de que qualquer empresa pode ser um banco ou pode ter um banco. E o pessoal falava: ‘Você tá louco?’. Mas os grupos começaram a perceber quanto dinheiro havia na mesa”, relembrou.

A explosão das fintechs

Os anos se passaram e o que se viu foi uma corrida para oferecer contas digitais e cartões de crédito. Para a Matera, isso significou também adaptar a tecnologia para atender a modelos de negócios diversos, uma flexibilidade que seria fundamental para lidar com uma avalanche de ideias posteriores, tanto as promissoras, quantos as que não foram para frente.

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“A gente entrega uma plataforma que, na verdade, é uma caixa de ferramentas. Os clientes vão olhar, bater o olho e saber qual é a melhor ferramenta para testar conforme o modelo deles […]  Apareceu de tudo. Teve muito modelo maluco, muito banco de nicho: o banco do caminhoneiro, o banco do fulano… A gente viu muita gente surgir e depois sumir”

-Fabiano Amaro, head de inovação e alianças da Matera

Esse ambiente efervescente foi impulsionado pela liquidez elevada da época. A Selic era muito mais baixa e era, portanto, mais compensatório que as instituições assumissem o risco emprestando dinheiro para fintechs do que deixar esse dinheiro parado. No entanto, vale destacar, “essa balança começou a se inverter com o tempo”, avalia.

Mesmo com a grande empolgação, segundo Amaro, os empreendedores descobriram eventualmente que operar um banco é bem mais complexo do que imaginavam. O desafio estava não apenas na tecnologia, mas nas exigências regulatórias e na maturidade operacional.

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“Do dia pra noite, o cara aparecia na nossa porta e falava: ‘Quero abrir um banco’. E a gente perguntava: ‘Mas o que você quer fazer?’ E ele dizia: ‘Ainda não sei, mas quero abrir um banco’ […] Você tem que conhecer rotinas de operação, contabilidade, reporte para o regulador. Começaram a roubar gente dos grandes bancos para operar, mas não tinha para todo mundo”

-Fabiano Amaro, head de inovação e alianças da Matera

Muitos desses novos entrantes adotaram o modelo de “conta bolsão”, em que uma instituição usa a estrutura bancária de outra para oferecer contas virtuais aos seus clientes.

Foco no PJ e crédito estruturado

Com o esgotamento das oportunidades nas contas de pessoa física, o foco do mercado se voltou para as pequenas e médias empresas. A conta PJ passou a ser vista com outros olhos, especialmente por distribuidoras de bebidas, que perceberam o potencial dos pontos de venda como espaços estratégicos para manter contas baseadas em recebíveis.

Esse movimento abriu espaço para novos formatos de concessão de crédito, estruturados a partir da análise do comportamento financeiro dos clientes. Com essa abordagem, tornou-se possível oferecer crédito lastreado nos próprios recebíveis. Esse novo momento do mercado foi considerado mais saudável e resultou no surgimento de empresas que continuam ativas até hoje.

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“O importante são os ‘nãos’, na verdade. O que a gente não faz […] Tem muito conhecimento embarcado. O conhecimento muitas vezes está na cabeça das pessoas”

-Fabiano Amaro, head de inovação e alianças da Matera

Nesse ponto, própria estrutura organizacional teve que amadurecer junto com o mercado, o que gerou maior equilíbrio entre atender às obrigações regulatórias e desenvolver soluções novas faz parte do DNA da empresa.

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“Não é algo que se capacita do dia para a noite. As pessoas têm que passar por momentos que levam à maturidade, para conseguir dar conta daquele código, daquele atendimento, daquela situação […] Inovação também está em se jogar naquilo que é diferente e trazer para o nosso contexto”

-Fabiano Amaro, head de inovação e alianças da Matera